Logo da Acessibilidade Brasil
Atalho para Conteudo 
Recursos de acessibilidade seta vai para o início >  
vai para conteúdo >  
vai para o fim >  

Página inicial > Entrevistas > Declaração de amor à vida de Marco Antônio de Queiroz
 
  Logo da Rede Rio com link para seu site
Estamos conectados
na internet através
da Rede Rio

Entrevistas
 

Declaração de amor à vida de Marco Antônio de Queiroz


Data: 11-01-2006

Diabético aos 3 anos e cego aos 21, em conseqüência de retinopatia diabética, Marco Antonio de Queiroz não deixou que isso se transformasse numa barreira intransponível. Pelo contrário, armou-se de coragem e enfrentou a vida de peito aberto. Estudou história na PUC Rio, fez um curso de programador de computadores e trabalhou durante 23 anos até se aposentar em conseqüência de dois transplantes, um de pâncreas e outro de rim. Casado, pai de um filho, publicou em 1986 o livro Sopro no corpo, no qual narra sua história até 1985, contando como ficou cego, como aprendeu a usar a bengala e a perder o medo e a vergonha de ser deficiente e ir à luta. Agora, ele relança a obra com o título “Sopro no corpo: vive-se de sonhos”, pela Editora RiMa. Além de contar sua história até hoje, também explica como a vida dos cegos mudou com a internet. Nessa autobiografia, optou por narrar sua vida da mesma forma que a leva, com bom humor e suavidade. “Revelo minhas vitórias e derrotas, dores e prazeres para, no final, o leitor sentir que ela é um romance intenso, movimentado, que amo a vida justamente porque, com todos os meus limites, realizei meus maiores sonhos”, afirma. O livro pode ser definido como uma declaração de amor à vida.

ESTADO DE MINAS – Como você aprendeu a lidar com a deficiência visual?

Marco Antonio de Queiroz – Ser cego, realmente, não é como as pessoas imaginam ser quando fecham os olhos por um minuto e tentam fazer algo. Fiquei cego aos 21 anos e não tinha nenhum tipo de contato com essa realidade. Não dá para acreditar muito que aquilo que aconteceu é definitivo. Você não se sente cego, mas percebe a coisa como se fosse momentânea, até que a consciência da realidade aparece de frente e não há saída possível. Passei, então, por uma fase de entendimento da deficiência em que aprendia a andar, a me vestir, a tomar banho, pegar condução e, aos poucos, já estava retomando minha faculdade e aprendendo cada vez mais como fazer as coisas sem ver. Arrumei trabalho, casei, tornei-me pai e escrevi um livro. Ou seja, retomei a vida.

A perda da visão foi gradativa ou aconteceu de uma vez?

MAQ – Sendo simplista, posso dizer que encostei meu carro na garagem, no sábado de Carnaval de 1978, subi para o apartamento, dormi e acordei cego. Apesar de perceber vultos que poderiam me dar orientação se tivesse experiência, não consegui andar sozinho. Depois, no entanto, os vultos se foram. Agora, faço tudo o que posso sozinho, e não é pouco. No livro, conto tudo isso.

Teve algum momento em sua vida que você se desesperou ou ficou se perguntando: “Por que isso aconteceu comigo?” Você procurou respostas ou aceitou o fato naturalmente?

MAQ – Acho que aceitei minha cegueira com muita rapidez. Para isso ser entendido, posso explicar que já era uma pessoa que, apesar de ter muitos amigos, sentia-se meio fora de esquadro, diferente dos outros. Quando veio a deficiência visual, ser mais diferente do que já me sentia por ser diabético não foi traumático, foi tão somente uma importante dificuldade a ser ultrapassada. Sentir-se diferente e ser diferente podem ser coisas que venham juntas ou não. Eu já me sentia diferente. Socialmente, tive vergonha de ser cego, mas logo que encarei o fato, fui à luta. À falta das imagens a gente se adapta até com rapidez. O problema quase sempre é muito mais emocional que prático.

Você fala no livro que o cego é educado dentro de conceitos distorcidos. O que significa isso?

MAQ – Significa que, em geral, nós, os cegos, somos educados para não fazer nada. Tudo chega às nossas mãos. A família se reveza para que não toquemos nas coisas, com medo que nos machuquemos ao realizar as tarefas mais simples. Isso é a superproteção. Quando o cego consegue, por exemplo, usar uma faca para cortar o pão, o queijo, aprende a utilizar a torradeira automática ou mesmo, por vezes, tenta pegar um copo d’água, a família fica tensa e, muitas vezes, corta-lhe a iniciativa. Assim, alguns de nós acabam ficando exatamente o que as pessoas imaginam que seja um “ceguinho”. Ou seja, uma pessoa incapacitada para qualquer coisa prática. No entanto, tenho amigos cegos que já escalaram o Pão de Açúcar, já foram à Inglaterra sozinhos para fazer cursos de inglês, trabalham e moram sozinhos ou casados com pares cegos ou com visão. O cego tem que ter atitude para conseguir sua emancipação, sua liberdade.

Você enfrentou preconceito na faculdade e no trabalho?

MAQ – O preconceito, com o tempo, vai se desfazendo socialmente. Mas esse é um processo bastante lento. As pessoas, cada vez mais, se acostumam a ver um cego no cinema, no teatro, no trabalho, nas reuniões, andando com certa independência pelas ruas, aparecendo aqui ou ali. A mídia, a novela, as páginas da internet (www.bengalalegal.com é meu site), enfim, nossa presença cada vez maior no meio social acaba por fazer as pessoas acostumarem conosco, questionarem-se sobre o que podemos ou não fazer. No entanto, ainda temos que enfrentar muito preconceito, proveniente do desconhecimento e da ilusão das pessoas que imaginam, mas não conhecem a nossa realidade. Passei por preconceitos na faculdade e no trabalho, mas sempre dei a volta por cima e espero que isso continue. Por outro lado, a convivência com as pessoas cegas faz com que todos acabem por perceber que não somos exatamente como pensam. Com isso, o preconceito se modifica, tornando-se mais ameno.

O que mudou depois do transplante de rim e pâncreas? A expectativa que você tinha antes se realizou ou você teve que se adaptar?

MAQ – Tanto os meus transplantes quanto a cegueira são conseqüência crônica da diabetes. Se ela não for bem tratada, se o diabético não assumir a camisa de que tem a doença, e não seguir as regras que ela dita inexoravelmente, poderá passar por tudo o que passei. Os transplantes são a solução mais moderna e completa existente para nós, diabéticos que perderam – ou estão por perder – as funções renais ou qualquer outra perda, como a da visão, e que estão com uma diabetes completamente descontrolada. Meu transplante de rim foi sucesso total. Eu fazia tratamento de hemodiálise há três anos e a mudança foi da água para o vinho. Diria mais: do inferno para o céu. O transplante de pâncreas eu repetiria mil vezes, se fosse necessário, mas seu sucesso, ao contrário do que acontece com a maioria das pessoas que o fazem, no meu caso não foi completo. Ele é feito para acabar com os sintomas da diabetes e, no meu caso, não preciso mais tomar insulina. Portanto, deixei de ser um diabético insulino-dependente, mas ainda tenho que fazer dieta e tomar remédios para resistência à insulina, pois o açúcar no sangue sobe quando cometo abusos. A qualidade de vida que esses transplantes me proporcionaram foram excepcionais. Posso dizer que, organicamente, sou outra pessoa. É bom salientar que o transplante de pâncreas só é feito em pessoas com diabetes do tipo 1, que já estejam com alguma conseqüência crônica da doença. Tratar a diabetes, controlar o nível glicêmico é muito mais simples que fazer transplantes e se submeter à imunossupressão, tratamento para que nossas defesas orgânicas não ataquem os órgãos transplantados.

É fácil viver numa sociedade que coloca muitas barreiras para a pessoa com deficiência?

MAQ – É mais fácil ser cego do que ser visto como cego. É mais fácil ser uma pessoa com qualquer deficiência que seja, do que ser visto como uma pessoa deficiente. É mais fácil ser gordo do que ser visto como gordo... sou magro. Todos gostaríamos de olhares mansos sobre nós. O olhar preconceituoso pode ferir, pois é ele que gera as atitudes.

Já mudou muita coisa ou a sua percepção é de que o preconceito ainda é muito forte?

MAQ – As idéias mudam antes que as atitudes. Podemos ser politicamente corretos nas palavras, fica bonito, mas na hora da coisa acontecer espontaneamente, o preconceito aparece na maioria das vezes. Porém, nesses 27 anos de cegueira, percebo mudanças acontecendo e a sociedade, em geral, se aproximando, querendo saber, solidarizando-se.

O que você pretende passar no livro?

MAQ – Pretendo mostrar minha história de vida. Sopro no corpo: vive-se de sonhos é uma autobiografia na qual revelo minhas vitórias e derrotas, dores e prazeres para, no final, o leitor sentir que ela é um romance intenso, movimentado, que eu amo a vida justamente porque, com todos os meus limites, realizei meus maiores sonhos. Por isso, com toda a luta, não deixo de sonhar. Todos que lerem meu livro vão perceber que a vida me deu muitos presentes e que, por isso mesmo, não a deixo aos pedaços pelo caminho. Estou vivo, amo a vida.

“É mais fácil ser uma pessoa com qualquer deficiência do que ser visto como uma pessoa deficiente”


 
Busca na seção

Últimas Notícias
I Seminário Amazônico de Acessibilidade, Inclusão e Tecnologia - SAIT 2012 

Prêmio Finep para Tecnologia Assistiva 

Acessibilidade Brasil completa 10 anos de existência 

Bradesco Seguros lança seu site acessível 

Dados censitários são uma das principais causas do fracasso das políticas públicas voltadas para as pessoas com deficiência 

Destaques
Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência  

Revista de Inclusão Social do MCT publica projeto da Biblioteca Nacional 

Metodologia de Atendimento e Acesso de Pessoas com deficiência a telecentros - parte1 

Metodologia de Atendimento e Acesso de Pessoas com deficiência a telecentros - parte2 

Jogos Parapan-americanos reunirão 1300 atletas de 10 modalidades 


Selos acessíveis

Selo de aprovação de acessibilidade pela Acessibilidade Brasil

Level Triple-A conformance icon, W3C-WAI Web Content Accessibility Guidelines 1.0

Parceiros
Logo do Governo Eletrônico

Logo da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos

Ministério do Trabalho e Emprego

Logo do Sicorde - Sistema Nacional de Informações Sobre Deficiência

A UNESCO chancela os projetos dos telecentros acessíveis e do livro fonado além da disseminação da acessibilidade na web

Ministério da Ciência e Tecnologia